Capítulo 05. "Kai Gaiden"
Parte 1
Era, distante dos barulhos e do asfalto, não havia carros ou motores perturbando o silencio, que ali era continuo, apenas afetado pela fala mansa daqueles moradores, ou pelo fervoroso canto dos peco-pecos.
O chão era barrento, e havia um riacho, riacho dos duques como era conhecido por aquelas bandas, o qual era conhecido pelas águas cristalinas e pelos salmões avermelhados.
Não parecia, mas era sim considerada uma Cidade. Haviam colinas, e bosques, na verdade apenas um bosque, o bosque dos lobos, e aqueles eram sim grandes lobos, tinham dentes afiados, eram vorazes e ferozes, alem de imensos. Na fase adulta ultrapassavam seus dois metros. E ao falar daqueles lobos, logo se lembrava de calafrios e é claro, do Senhor Jones, Sebastian Jones. A pessoa mais ranzinza e rabugenta daquele pedaço, era barbado. Diziam muitos que era a preguiça que o mantivera daquela forma, e também não tinha cabelos aparados ou penteados, mal comparecia a cidade.
Sebastian vivia sozinho, perto do bosque, logo depois da colina. Em um rancho, muito bem cuidado por sinal, e com aparência fraternal.
Poucos se arriscavam a seguir para aquela parte da cidade, haviam lobos, alem de mencionarem que o morador de lá, conversava com os caninos, até os hospedava quando a chuva era forte, ou quando riacho duques transbordava. Eram lobos que não gostavam de água, assim como Jones, diziam os pacatos dali.
Apesar da hostilidade presente, Jones sempre que era possível, ou quando o tempo lhe era vasto, comparecia a cidade, sempre comprava tecidos e carne seca, muito mais do que podia comer diziam as más línguas, e tecidos!? O que um velho faria com tecidos afinal!? Ele usava couro dos lobos como vestes.
Era com certeza um dos mais comentados dos moradores dali, e não se preocupava, sempre dizia: ‘fofocar é habito dos moradores que não sabem o que fazer com o tempo!’ e sempre dizia isso seguido de uma feição engraçada.
E por sinal, por ali, havia muito tempo de sobra, e pouco trabalho, vivam de suas colheitas e de suas fofocas, porem eram saudáveis, eram distantes dos problemas da comunidade, apenas viviam e sorriam o tempo todo.
A rotina de Sebastian não era diferente plantava cenoura e repolho, alem de milho, tudo em pequena proporção, e cultivava em especial, algo diferente, parecia uma fruta ou um legume, era de difícil distinção.
E tinha origem desconhecida até pelo próprio Jones, segundo ele mesmo, a fruta a garantia de sua vida em sua moradia. Nem mesmo um nome ele havia dado a ela, ali ela apenas surgiu, ele apenas a cultivou. Havia ainda mais alguma coisa, toda noite, quando passava das oito, os uivos se intensificavam, os cães cercavam aquela residência.
Antigamente, o medo era imenso, Jones trancava todas as portas, e tinha madeiras protegendo suas janelas. Durante dois anos inteiros foi isso que ocorreu, porem, com o tempo, aqueles gritos não se tornaram rotineiros, o medo escoou, e antes que pudesse se dar conta, suas janelas já não estavam bloqueadas tão pouco suas portas trancadas.
Um dia de insônia, chovia muito, e como todas as oitos horas, eles estavam por lá, e diferente de dias antigos, Sebastian, ousou, partilhou de sua coragem momentânea e pela primeira vez, espiou, acanhado, pela janela do quarto.
O que viu lhe impressionou, era incrível, parecia ate uma imagem retorcida da realidade.
Eram os mesmo lobos de sempre, com aqueles dentes afiados, e aquele tamanho todo, amedrontador, amedrontador?! Seriam de fato, se não estivessem como naqueles instante: Estavam pulando uns nos outros, tinham olhos acolhedores, pareciam ate sorrir por momentos.
- São filhotes? - Perguntou-se, quase sem perturbar o silencio. – Não podem ser filhotes, não com esse tamanho! – respondeu –se concordando com seu próprio argumento.
Caminhou ate as escadas, e desceu degrau por degrau, imaginando se deveria para espiar de perto, ou continuar por ali, e ainda sem uma resposta definitiva, se viu na parte externa da casa.
Diante dos quadrúpedes, que mesmo engatinhando eram maiores que homem de pé.
Os lobos ignoraram a presença do homem, e continuavam a praticar suas idiotices de lobo. Eles estavam todos sob a horta das frutas sem nome, era evidente a ingestão delas por eles.
Jones apenas caminhava para perto deles, que apenas o notaram quando desatento o homem esmagou uma das frutas com seu pé esquerdo. Simultaneamente, todos os caninos voltaram seus olhares para o homem, e logo o cercaram, e o farejaram.
As pernas começaram a tremer, e um vestígio de suor escorreu de sua face. O pavor o dominou, perdeu com isso, todo e qualquer movimento, apenas esperou pela morte ate então.
O primeiro lobo se aproximou.
- Tsic... – Resmungou o senhor, temendo tal presença.
Era o fim segundo ele, a esperança se findava à medida que os passos eram feitos pelo canino.
O lobo abaixou a cabeça, e com a parte superior da mesma, empurrou o homem. Que evitava olhar naqueles olhos vorazes. Percebendo a falta de efeito, o lobo persistiu, empurrando-o novamente.
Sebastian direcionou sua visão pela primeira vez contra os animais, percebeu então, que o temor anterior o manteve preso a idéia de que eles eram assassinos cruéis, porem agora, tinham olhos acolhedores.
E como outrora pareciam sorrir.
Mas sorrir é uma habilidade humana segundo o homem, talvez sua imaginação o tivesse dominado por hora, mas a doçura dos lobos era evidente.
Mais tarde ainda, confirmou sua hipótese, eram as frutas que os mantiveram tão amistosos.
Eles viam o homem como a fonte da apetitosa fruta, mais tarde denominada como Amaró, e em resposta o homem, continuou a cultivá-la, aumentando conseqüentemente sua horta. De fato trabalhavam uns para os outros com o passar do tempo. O explica a fama de Sebastian Jones na cidadela.
Era aniversario de Wolfton, a cidade a qual moravam todos. E todos os habitantes se reuniam nessa data, era uma grande festa, camponeses e ferreiros, cavalariços e artesãos. Todos se organizavam, e doavam frutas, metal e tudo o que lhes era possível para fermentar a maior das festas dali. Uma mesa imensa e fortíssima se localizava no centro da praça, mulheres cozinhavam e homens cuidavam das musicas, enquanto as crianças corriam pra lá e pra cá. A noite era longa e todos eram convidados.
No alto colina, como sempre sozinho, apenas com a presença de seus novos animais, Jones, por ventura, se sentiu triste, afinal, nunca havia participado de tal festa, e era hoje, todos estavam tão excitados. Após refletir a esse respeito, decidiu enfim, partir colina a baixo, porem antes, vestiu-se com aquela pele mais bela, de antílope, e as botas mais confortáveis. Colheu em seguida algumas Amaró’s. Tinha em mente oferecê-las ao bem do festival. E não demorou muito, já estava pronto.
Ao sair, três dos que ele mais gostava, os três primeiros na verdade, o observavam, a meia distancia, Sebastian depois de tanto, já entendia seus lobos, eles queriam seguir-lhe. E depois de tantos anos, tendo apenas eles como companhia, se viu no dever de acatar ao desejo dos amigos.
E como sempre, os caninos lhe surpreendiam, o primeiro, que sempre pareceu o líder dos três, senão, ao menos de mais atitude entre eles, com os dentes levantou-o e colocou o homem em suas costas, sugeria sem dizer que cavalgasse sobre ele:
- Cavalgar em lobos!? É surreal! – foi o que disse aos seus amigos peludos, que adiante seguiram a descer a colina. E caminhavam em uma formação imponente ao chegar a concentração de pessoas. A sua esquerda Lótus o maior dos lobos, a direita Nero, o mais temido entre os mesmo. E por alguns segundos, logo que perceberam a presença dos não-convidados.
-Mamãe, são lobos ? perguntou uma criança a sua mãe. Que se manteve sem reação.
- Não , n..não, tenham medo dos lobos, eles são domesticados! – explicou Jones. Nero em resposta olha ofendido para o homem. – Não, quero dizer, eles são amigos. – Jones tentando concertar o mal entendido, e lhe pisca com o olho direito para Nero.
Os lobos responderam com uivos, altos e firmes, era o cumprimento dos lobos, porem na cidadela, nenhum humano conhecia tão reverencia, e entraram em desespero. As crianças começaram a berrar, e algumas mães a correr a procura dos filhos.
- Tire esses monstros daqui – Disse um homem qualquer. – Eles não são monstros, estão apenas dizendo ‘oi’, confiem no que eu disse antes, estamos aqui para partilhar da festa. – explicou Jones.
O pânico continuou momentaneamente, porem, o tempo fez com que se acalmassem, minutos depois estavam todos alimentando os lobos.
- hei, peguem, eu trouxe umas frutas, para enfeitar a mesa também. – Jones oferecendo as amaró. – Ahh obrigada... Vamos colocá-las lá agora mesmo – Disse a senhora que cuidava da mesa.
E logo que as colocaram sob a mesa, muitos curiosos, decidiram saborea-la, e o efeito foi quase imediato, começaram a rir sem parar, a falar coisas sem nexo, a agir de forma infantil.
Era uma surpresa, até mesmo ao Jones, eles estavam, realmente bastante mudados. Seria por culpa das amaró’s!? Isso nem poderia ser considerado uma duvida, a fruta tinha algo, que mudava o comportamento daqueles que a ingeriam. Logo a segunda surpresa da noite, todos começaram a comer apenas aquelas frutas, deixando de lado as maças, peras e assados do festival. Era um sucesso! Era uma gigantesca palhaçada, e em meio aos sorrisos, apenas duas pessoas pareciam sóbrias o suficiente para manter uma conversa adulta. Seu nome era Catarine.
E durante aquela noite, apenas eles conversaram, cercados, pelos lobos guarda-costas de Sebastian, e encalçados pela lua cheia daquela noite. Catarine gostava de animais, e de ranchos, tinha adoração por livros e contos da era passada assim como o próprio Sebastian, que escrevia algumas coisas sobre os tempos antigos, como distração.
Para o homem, eram muitas informações, ele já a conhecia bem, e já era tarde, Lótus e Nero já estavam nervosos, e Kira o terceiro lobo, o que o carregava, já parecia impaciente. Decidiu enfim partir, despediu-se de moça.
Montou em Kira, e seguiram rumo à colina. Sebastian estava sorridente, parecia bastante satisfeito.
Chegaram bastante rápido ao rancho. Entraram nos aposentos, e logo estavam dormindo, todos, lobos e homem.
O embalo dos sonhos tomava conta do cômodo, distantes da realidade, Sebastian, com um sorriso na face, Kira, Nero e Lótus, derrubavam sobre o chão de madeira sua saliva, sem perceber.
O homem sonolento desperta apavorado com o som do bater na porta, tinha alguém aquela hora da noite ao querer visitar-lhes, era raríssimo alguém se arriscar a isso, haviam lobos selvagens ainda por lá. Os amigos também despertaram, e Nero correu na direção da porta, era o mais impulsivo deles, só não abriu a porta pois não tinha dedos para girar a maçaneta. Sebastian em seguida chegou e abriu-a. e deparou-se com a terceira surpresa da noite. Era Catarine, bastante suja de barro, aquela colina era bem barrenta. Porem mesmo com tal estranheza, perguntas não foram feitas. E a noite se confirmou ao ser longa.
Catarine Jones, era nome da garota, após a terceira semana de conhecidos. Se casaram muito rapidamente. E o Jones, agora não apenas com a companhia de Lobos, tinham um humano com quem conviver.
Logo engravidou, era o pressagio de um família grande, não tinham nem um ano de convivência, Sebastian e Catarine. Juraram amor eterno.
Os dias passaram, e os meses em seguida, logo o herdeiro nascera.
-Julian, assim como desbravador! – Sugeriu Sebastian ao ver o primogênito nascer. – Julian é perfeito! – completou Catarine.
-Julian, trouxe com seus marinheiros do norte, autonomia de pensamentos, trouxe a liberdade em sua bagagem, e a honra, espalhou por aqui esses sentimentos. Era o rei dos livres, que lutava ao lado de seus guerreiros. – explicou o senhor, orgulhoso pelo filho.
-Julian Jones, soa bem não!? – Catarine.
E foi assim, o nome do garoto a partir ali era esse, Julian Jones, filho de Sebastian Jones, o selador de lobos, e Catarine Jones.
Tinham muita expectativa quanto ao garoto. Ele havia feito tudo ter valido a pena, era isso que Sebastian sempre dizia.
Ainda é importante lembrar, que Sebastian havia mudado sua imagem, os visinhos não mais tinham medo de seus lobos, ou do bosque dos lobos.
Agora, sempre compareciam a cidadela, por hora a visitar os parentes de Catarine, por hora para levar o jovem Julian a comunidade, não queriam abstê-lo de uma vida social.
Os anos continuavam a passar.
Julian já com sete anos, Sebastian com quarenta e quatro e Catarine com trinta e dois. Julian ia sempre a escola cavalgando em Nero, que dedicava muito afeto, não era dos melhores alunos, porem não era dos piores também. E enquanto o filho estudava, Catarine e Sebastian trabalhavam na manufatura dos Amaró’s, e escreviam contos, ‘Os Contos de uma nova era’, e soletravam as maravilhas e proezas dos tempos atuais com a mesma magia das escrituras antigas, explorando o mesmo fascínio e magia. Eram felizes por lá, ao ponto de não se preocuparem com nada, nem com o tempo, nem com o dinheiro. Pregavam que a virtude era o único caminho para conquistar a justiça, e relatavam isso a todo momento em seus contos, que a liberdade seria o primeiro item se houvesse um livro sobre a justiça. Apesar de não precisarem do dinheiro, sempre que concluíam um de seus contos, partiam para a cidadela, e vendiam seus exemplares, todos os que conseguiam, e quando não havia interesse por parte dos compradores, os doava, aos que passassem por perto. Era tão empolgante para os autores, que não podiam deixar de repassar o que julgavam ser a expressão de seus corações, a obra de arte emocional dos mesmos.
Eram de fato artistas. Porem, certa vez, ao terminarem seu décimo oitavo conto, ‘Alvorada Cintilante’ a mais politizada de suas obras, que relatava em resumo, a magia da pureza em contraste com a opressiva escuridão da malicia. Por ventura, Sebastian estava muito ocupado, tinha que reerguer as cercas que Kira e Lótus haviam quebrado acidentalmente no dia anterior, ficou no rancho, a concertar o cercado enquanto Catarine partiu, sozinha, para a cidadela com cinco exemplares apenas dos contos. E como de costume, Julian e Nero também já haviam saído, já eram dez da manha aquela altura.
Desceu rapidamente a colina, queria encontrar a feira aberta, ate porque era fato que após aquilo, a cidadela voltava a ficar vazia, todos tinham que preparar o desjejum. Chegara a tempo ainda. Eram dez vinte e oito. Dali dois minutos tudo fecharia, tinha sido por pouco dessa vez, esboçou apenas um suspiro por tanto. Era ainda planejado, voltar na companhia de seu filho, que estudava ali, logo a frente, ela ate podia avistar Nero deitado a sombra de uma arvore, perto da porta de entrada.
Estava tudo como o de costume, a não ser por uma coisa. Calado e observando da calçada seguinte, o delegado, estava atento, parecia estar incomodado com a situação. Ignorando a situação, a jovem continuou, sentou-se na encosta de uma arvore, desfrutando da paz e da sombra do local. Eram ainda dez e meia da manha e o calor já os castigava de tal forma que quase não se podia sentar-se ao sol. Tirou suas coisas da bolsa, e as deixou a mostra. Logo algumas de suas amigas aproximaram-se, três ou quatro delas aquela altura.
- Veja Samira, conseguimos terminar nossa obra, eu e Sebastian.- a amiga, se surpreende e logo estende sua mão direita e se preparou para dizer algo, que por sinal jamais foi dito, foram surpreendidos naquele instante pelo delegado, que começou a falar: - A senhora não pode vender materiais didáticos sem uma autorização, você esta autorizada a vender isso senhora? – perguntou o homem. – Mas nunca foi exigido isso senhor delegado.
A senhora mais uma foi interrompida, parecia deseducado o homem, e começava a perder a paciência. – Não senhora, como você agiu antes ate agora não é um problema da policia, porem, agora somos filiados ao conselho a nacional, fazemos parte do império, e logo, seguimos suas leis, se a senhora não me apresentar uma autorização, seu material será confiscado agora mesmo. Catarine, puxou o livro das mãos do homem subitamente, que resistiu, entraram em conflito. O homem esboçou um ato hostil, preparou seu braço, como se fosse desferir um golpe, talvez um tapa, talvez ou murro, no entanto, não fora capaz de concluir, algo o aterrorizou, antes que terminasse. Um uivo soou no ar, não um uivo comum, era evidente a inimizade presente ali, como grito de ódio e inconformidade. O terror pairou sob o coração do homem de meia idade, o delegado sentiu-se atacado, sabia que tal inimizade era dedicada totalmente a ele, e enquanto se virava para ver o que lhe reservava o destino, ensaiou suas ultimas palavras em forma de preces. Era Nero, que caminhava lentamente, com os olhos estufados, e com gotículas de saliva escorrendo sobre sua presa, que era imensa aos olhos do delegado. Parecia o próprio demônio que vinha a lhe julgar, o próprio mal encarnado e prestes a espalhar o seu terror naquela praça, sedento por sangue, seguia caminhando, lentamente, o medo do oficial lhe parecia saboroso, parecia ter o desejo de prolongar aquele instante, e logo a frente o homem, tinha os dedos gélidos e trêmulos, logo soltou o livreto, deixando que a mulher o levasse, o suor escorria na testa do oficial. As pessoas ao redor, apenas abriram caminho para o canino. Já estava próximo, muito próximo, o homem sequer podia se mover. Catarine interviu por sua vez, pediu para que Nero parasse, mas o mesmo parecia a ignorar por completo, ele apenas caminhava e ouvia os berros da mulher para que voltasse a escola. Nero estava muito próximo, menos de dez metros do seu alvo, queria justiça, acreditava que nenhum humano tinha o poder para prejudicar nenhum de seus amigos. O sangue era pagamento por tal pecado, e estava disposto a isso, tinha o desejo de recobrar a justiça, porem algo o parou, quando já estava muito próximo de concluir seu objetivo. E como antes, um som surgiu no ar.
Uma voz feminina pairou no espaço. –Nero! – Era Julian, a criança abençoada pelo amor de Nero, que o fez tornar o olhar para a traseira, queria ter certeza que era seu amigo a lhe chamar. Balançou a cabeça, e virou-se novamente para o homem, sua sede era imensa. E para surpresa de todos, quando o ataque já estava armada, o movimento já havia se iniciado, Nero é atingido, por uma pata imensa e cinzenta, era Lótus, que o olhava com braveza, o único cinzento entre os três, possuía ainda olhos cinzentos, esse era Lótus, o logo mais avistava também, alem de Kira, Sebastian, que caminhavam juntos. Nero se viu sem opção, afinal, eram dois de seus companheiros, e de força imensurável. Kira os conduzia porem, Lótus era uma incógnita, era ainda maior que os seus semelhantes, e o melhor caçador entre os três, caminhava sem ser percebido, e era voraz, era ele quem Nero temia e respeitava.
Todos se aproximaram, Sebastian desceu de seu lobo, e perturbado queria saber o que havia acontecido, o Delegado que era conhecido como durão, estava tremulo, parecia uma criança, sem fala. Sebastian perguntou a sua esposa o que Nero tinha feito e o porque. Logo o delegado se recompôs e sobrepôs a sua resposta.
- Seu lobo, ele esta louco, tentando atacar pessoas, você não pode deixar que eles venham a cidade dessa forma, é idiotice manter bestas aqui, na comunidade.- disse o delegado, que recobrava seu lado desagradável. –Certo, mas eles não atacam, nunca atacaram, tenho certeza que a explicação para isso vai alem de ‘lobos que atacam pessoas inocentes’.- respondeu Sebastian, e concluiu interrompendo o homem mais uma vez. – Sugiro irmos embora. – disse sebastian, e sua mulher concordou. No entanto, por alguns segundos, o delegado e Sebastian se encararam. Não pareciam ter como objetivo parar de se encarar, até que o momento foi quebrado por uma frase, do próprio oficial.
-Você tem lobos, e a cidade a seu favor, e escreve coisas que insultam o governo, quanto mais vocês vivem, mais crimes vocês acumulam, o braço forte do império se lembrara, de quem o apóia, mas principalmente de quem o ameaça. Nos vemos por ai senhores Jones. –Disse o delegado, e se virou, e caminhou, deixando a interrogação no ar, Sebastian se viu preocupado. Julian veio correndo e abraçou as pernas de sua mãe, logo em seguida todos os caninos se aproximaram, e Julian logo abandonou a mãe e subiu nas costa de Nero, eles partiram na frente, correndo contra o vento, no trajeto das colinas. Kira também se aproximou, e pos a senhora Jones também sob suas costas, enquanto Sebastian, olhava desconfiado e pensativo, para o homem que se afastava, Kira percebeu rapidamente, e respeitou o momento, que não durou muito, logo Sebastian também subiu em Kira e partiram. Na retaguarda foi Lótus, sem carregar ninguém.
Logo todos estavam no rancho, Julian, como criança, se desmanchou e espalhou seus brinquedos sob o chão, logo ao lado de Nero. Sebastian sentou-se a mesa, e Catarine armou-se com a cafeteira.
Os pensamentos de Sebastian eram sombrios, não sabia o que podia acontecer, a duvida lhe consumia, era angustiante. Sua mulher percebeu o que estava acontecendo, eram alguns anos de convivência, se conheciam muito bem, queria conforta-lo.
- Não se preocupe, nenhum soldado ou governo pode nos afetar, temos os lobos, temos o bosque dos lobos, onde eles não entram, e temos a razão a nosso favor. – Disse a mulher, tentando fazer com que o homem se acalmasse. Sebastian sorrio, ele era o homem da casa, sabia que toda a responsabilidade dobrava-se sobre ele, e tinha certeza que o bosque ou a razão não iriam ser armas potentes o suficiente para salva-los, se o pior acontecesse, e tinha ainda um personalidade gritante, não queria passar preocupações para a mulher, tinha certeza que aquilo era sua tarefa, mesmo que não tivesse certeza de um final feliz, a penumbra da duvida e da preocupação deveria cair totalmente sobre ele, que sua mulher e filho não se preocupassem, era um peso que apensa o próprio Sebastian tinha como dever carregar. – E os contos, nenhum foi vendido!? – perguntou o homem, deixando o assunto principal de lado, Catarine também sorrio e entendeu novamente o que o homem tentava fazer, eram como partes separadas de uma mesma maçã, até pensavam de maneira homogenia, e agiu da mesma forma, fazendo com que pensasse que o problema deveria ser carregado pelo homem, mas agonizou também, em equivalência a Sebastian. – Não foi possível, isso é algo quase deprimente não é, Seba. – Respondeu a mulher. – eles não fazem idéia do que estão deixando de ler- concluiu em resposta para sua esposa. Os dois sorriram nesse momento.
Cultivavam acima de tudo o bem-estar um do outro, e uma mascara foi criada naquela casa, parecia tudo bem, enquanto nos corações de seus moradores, a escuridão era eminente, e lamentaram em silencio, desfrutaram da duvida, conheceram a primeira fase do inferno. O melhor a se fazer, era tentar dormir, era o que o homem dizia a si mesmo, e foi o que fez. Logo que a noite caiu, nenhuma lamparina foi acesa por ele nem por sua esposa, logo dormiram.
No quarto ao lado, estava Julian, e Nero, Julian tinham cavalos, feitos manualmente pelo seu pai, estava brincando ainda, contava ainda com a companhia de Nero, que ele envolvia em suas brincadeiras.
- Veja Nero, esses são os cavalos mais velozes do mundo inteiro.- Nero apensa olhava aquilo. – são sim, são mais rápidos ate mesmo que você, meu pai disse, que Julian do norte, era o homem mais forte do mundo e tinha o cavalo mais veloz do mundo, ele era branco, de uma raça muito rara, somente no norte eram encontrados esses cavalos, ele disse também, que como esse cavalo apenas mais um homem no mundo todo tinha. – o lobo fingia que ouvia aquela conversa, mais tinha sono, estava esperando apenas o garoto dormir, para que ele dormisse também. – e que esses dois homens, se enfrentaram em uma batalha a muito tempo atrás, e fizeram a cicatriz que corta o país, e que deu nome a Scar, mas o Julian venceu, por isso eu tenho o nome dele. – Julian contava enquanto Nero apenas emitia seus sons estranhos de lobo.
- Mas na verdade, eu acho que essas lutas, não deveriam acontecer o tempo todo, eu tenho certeza que quando eu crescer eu vou ser rico, e vou ter mais poder que o próprio Julian antigo.- o sono começava a ser a dominante no entanto. – É, é isso que eu vou fazer.
Foi a ultima frase da noite, depois disso fora enlaçado pelo sono, e dormiu também. Nero o levou até sua cama, era o fim do dia, em seguida saiu pela janela.
Uma nova data nasceu, era agora vinte e sete de fevereiro de dois mil trezentos e noventa e seis, da terceira era, conhecida por era da luz. Como sempre, a natureza manteve-se firme em seus horários, as seis da manha a noite foi vencida pela luz da manhã, e como sempre ainda, os senhores Jones se levantaram, era sábado, porem a horta tinha que ser regada, e Nero, Kira e Lótus tinham entrar em casa.
Logo cedo, a horta já tinha a companhia de Sebastian, e Catarine tinha um balde e caminhava, colhendo tomates, e cenouras para temperar a comida do jovem Julian, que dormia sem preocupações.
Nenhuma palavra fora dita até aquela altura, havia algo de errada, um pressagio talvez, mas a calma não era uma característica. O Tempo passou devagar, e o gosto da angustia ainda surtia. Já eram oito da manha, nem Kira e nem Nero, muito menos Lótus haviam aparecido, mais um fato estranho, apenas seus uivos eram ouvidos, estavam nos confins do bosque, espalhando seus sons aos quatro ventos.
Era estranho, estavam sozinhos, apenas Catarine e Sebastian. Era um dia quente, e o tempo passava, talvez nada de fato iria acontecer, era a esperança de Catarine. Um vento frio passou, contrastando, algo que fez o arrepio presente em Sebastian, que olhou para a encosta da colina. O que diabos era aquilo!? Se perguntou o homem, percebendo logo o som de uma marcha, alguém se aproximava.
Era impossível imaginar o que se passava na mente distorcida do homem naquele momento, um assalto!? Contra moradores peculiares!? Seria a ofensa de um dia antes grande a esse ponto!? De fato não existiam respostas para tais perguntas, a única certeza era que eles estavam próximos. Logo chegaram ao topo, a frente do portão dos Jones. E Sebastian estava lá para recebe-los.
- O senhor é Sebastian Jones !? – perguntou um dos homens, e antes que houvesse uma resposta, Kira saltou, e se pos a frente de Sebastian, e encarou o oficial. –Isso confirma a queixa, o senhor esta preso, por ameaçar o império e seus oficiais, tire seus animais, e nos siga.- completou o homem. Kira havia percebido a algum tempo as armas em punho dos policiais, e estava alerta desde então.
- Mas o senhor, não pode nos prender, não somos criminosos! –suplicou Sebastian, que via logo atrás sua mulher, e não queria que um embate acontecesse ali.
- Somos servos da ordem, seguimos protocolos, e quem julga a sua inocência são homens de patentes superiores a minha, não torne isso um trabalho difícil, apenas nos siga. – disse o militar responsável. – tsic ! – Sebastian ficou por um momento sem fala. Kira respondeu por ele e avançou, seu gruído fez com que por um segundo todos recuassem, segundo esse que foi ultrapassado rapidamente, apontaram-lhe suas armas e estavam prontos a atirar, o foco era Kira, logo esqueceram sua formação e miraram todos em um só alvo, o que era lamentável para soldados treinados. Da esquerda, em silencio, o lobo mais silencioso, Lótus, estava já entre eles, e atacou primeiramente o primeiro dos homens, o único que falava, decepou-lhe a mão, e continuou a atacar, sem remorso, em questão de segundos o homem já estava morto, nem mesmo seus gritos eram ouvidos mais, o pânico era eminente, enquanto miravam, Kira atacou pela frente, e por vinha Nero, a terra que era regada por sonhos de um futuro prospero pela primeira vez sentiu o gosto amargo do sangue.
Eram muitos homens, e eles atiravam sem parar, porem a pele canina era espessa, apenas arranhava os gigantes, foi um massacre, e o fator surpresa havia sido usado, era inevitável que todos caíssem. Catarine correu e ficou perto de Sebastian, estava espantada pelo poder dos lobos, enquanto os homens caiam, os lobos dançavam sob seus cadáveres, e ignoravam os tiros, até então era um trauma superável.
A mente do homem é maligna, um deles, em meio aos corpos, parecia não ter mais uma de suas pernas, e havia percebido o quão inútil era atirar contra os animais, decidiu que morrer sozinho não era uma opção. Tinha uma carabina em suas mãos, usou-a, mirou no vão entre os seios da mulher, tinha um ângulo reto e perfeito para tiro, era impossível errar, um tiro fatal foi desferido.
Nero o viu, porem era tarde demais, mais tarde esse seria o único corpo desfigurado entre tantos outros. A bala percorreu o espaço, e como sugerido, errar era impossível, a bala atingiu a mulher, entre seus pulmões, em cheio na massa cardíaca, seu coração fora praticamente estilhaçado, parecia a presença da morte. Caiu de joelhos, apenas a tempo de ver logo atrás de si, seu marido, com as duas mãos sob o tórax, quase a altura do pescoço. A bala havia atravessado-a, e atingida uma segunda vitima, a moldura de uma tragédia era evidente. Kira abaixou e apenas ficou olhando seu amigo agonizar. De longe, Lótus correu ate aquele ponto, e diferente de Kira, agiu, colocou os dois humanos em suas costas, e desceu a colina as pressas, lá haviam pessoas que poderiam talvez ajuda-los. Desceu a colina em alta velocidade, Nero o seguiu e Kira também, porem Kira parecia destruído emocionalmente. Rapidamente chegaram a cidadela. Haviam pessoas por lá, muitas pessoas, porem nenhuma autoridade, talvez todas destes tivessem morrido ao subir a colina. Algumas pessoas ajudaram a levar os Jones as enfermarias da cidade, logo estavam lá.
O tempo passou. A noticia da morte da mulher havia sido dada de imediato, não havia sobrevivido ao trajeto, porem Sebastian, continuava, parecia estar sendo operado.
O tempo continuou a passar.
Nero subiu a colina e trouxe Julian para a cidadela, tinha sete anos, era jovem demais para passar por aquilo. Levou-o até o hospital. Eram tempos tristes aqueles, um trágico para um começo mágico.
Kuragari no Ga
segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
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